Rio de Janeiro 12/02 - 19:16 A filosofia do gari Renato Sorriso Mauricio Stycer conversa com o gari mais famoso do carnaval brasileiro Mauricio Stycer, repórter especial do iG
Renato Luiz. F. Conceição é figura manjada no sambódromo carioca. Ao final de cada desfile, ele é o mais animado dos homens vestidos de abóbora que passam pela avenida, vassoura na mão, limpando-a para a escola seguinte. O seu sorriso, exibido publicamente desde 1997, entrou para a galeria das imagens clássicas do carnaval.
Graças ao trabalho como gari, Renato Sorriso tornou-se uma celebridade. Já conheceu a Europa, em shows ao lado de Elza Soares, Jair Rodrigues e Alaíde Costa, participou da novela “America”, de Gloria Perez, e atuou em comerciais ao lado de Gisele Bündchen e, mais recentemente, de Zeca Pagodinho. Não bastasse, também costuma ser contratado para palestras motivacionais em grandes empresas, onde discorre, de improviso, sobre a sua filosofia de vida.

“Falo sobre crescer, fazer a diferença numa empresa”, diz Renato, instalado, como diz, em seu “escritório”, um banco na Praça Xavier de Brito, na Tijuca, zona norte do Rio. “Acho bacana o que eu faço. Acho bonito ser responsável por uma área, por uma rua. Os moradores confiam em mim, me valorizam muito”, diz. “Só peço uma coisa: se um dia eu errar, não venha me dar uma bronca, venha me explicar como é o certo. Porque eu faço com coração”.
Aos 44 anos, casado, três filhos, Renato planeja escrever um livro sobre a sua experiência de vida. “Quero escrever sobre a minha vontade de crescer, de viver”, diz. “Estou galgando”, observa, referindo-se à sua formação. Em 2009, vai cursar o terceiro ano do ensino médio. “Uma assessora da Comlurb chamou a minha atenção que eu falava muito ‘os gari’. Hoje eu falo ‘os garis’. Aprendi”, diz, abrindo aquele sorriso.
Este ano, além de passar com a vassoura na avenida, Renato vai sair como destaque no chão na Portela, caracterizado como malandro, e como passista na União da Ilha, que desfila no Grupo de Acesso. Enquanto conversava com o iG, na última quarta-feira, também foi convidado a desfilar pela Parque Curicica, que está no Grupo B.
Apesar de todo o sucesso e fama, Renato não cogita abandonar a profissão de gari. “Não estudei para ser ator. Se um dia eu largar a vassoura, tudo isso vai acabar”, diz. O salário básico de um gari da Comlurb é de R$ 631,34, aí já incluídos os R$ 166,34 recebidos a título de insalubridade. Renato não revela quanto ganha – além de ser responsável pela varrição de três ruas na Tijuca, no turno matinal, ele também funciona como um relações públicas informal do seu trabalho, sobre a qual fala com entusiasmo.
“Se a população se conscientizar, não tem necessidade limpar uma rua três, quatro vezes por dia. O correto seria limpar apenas uma”, ensina. “As pessoas não entendem a importância de colocar um pedaço de papel na papeleira, a importância de não colocar um vidro dentro do saco de lixo”, prossegue. “Um toco de cigarro jogado na rua leva seis meses para se decompor. Uma maçã, oito meses”.

Outra reflexão de Renato sobre o trabalho dos garis diz respeito à imagem pública dos profissionais: “O gari pede um copo de água numa casa e ouve que não tem copo, que não tem água. Aquela pessoa que negou não sabe que foi você que limpou a rua dele”, diz. “A mão do gari pode estar suja do trabalho, mas é limpa de honestidade”.
Renato percebe, claramente, em seu cotidiano os reflexos da notoriedade alcançada como gari. “Sempre como numa churrascaria no Norte Shopping. Antes, quando eu ia me servir, o cara me servia seis corações de galinha. Aí falaram pra ele quem eu era e ele encheu meu prato de coração”, conta, abrindo aquele sorriso famoso.
Ele sabe, porém, que a sua fama desperta ao mesmo tempo admiração e inveja. E diz tirar isso de letra: “A inveja eu consigo carregar... Não é todo mundo que vai ser Pelé, vai ser Roberto Carlos, vai ser o gari Sorriso”, observa. “Combato isso tratando todo mundo bem”.
Em particular, Renato agradece o público que assiste o carnaval do Setor 1, onde os ingressos são mais baratos. Foi lá que ele alcançou a notoriedade. Na primeira vez em que dançou na avenida com a sua vassoura, foi advertido, ainda na pista, por um funcionário da Comlurb. Ao perceber o que ocorria, o público no Setor 1 vaiou. Até que Sorriso foi autorizado a se divertir – e divertir o povo – na avenida.
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