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Salvador 25/02 - 03:30 Cordeiros: eles levam o carnaval com as mãos Peça fundamental no carnaval de Salvador, eles são muitas vezes humilhados e maltratados pelos foliões que pulam dentro ou fora da corda Daniela Barbosa

Você já imaginou ficar mais de cinco horas segurando e puxando uma corda com as mãos e ganhar pouco mais de 25 reais por isso? Essa é a função dos cordeiros no carnaval de Salvador. Eles são responsavéis por separar os foliões associados aos blocos que seguem os trios dos famosos fanfarristas que acompanham de fora da cordinha.

O trabalho é árduo, mal remunerado e oferece bastantes riscos à saúde e à integridade dessa classe de trabalhadores. Para Ana*, que  este ano recebeu uma ‘promoção’ e virou fiscal de cordeiro, a humilhação é a pior parte do serviço. Ela explica que os foliões não respeitam mesmo. “Eles costumam chutar, bater e xingar dos piores nomes. Já fui chamada de até de vagabunda, mas não levei o desaforo pra casa, revidei com um tapa na cara”. Ana recebeu essa promoção, porque apresentou 20 cordeiros à empresa para qual trabalha.

Renato*, que tem apenas 18 anos, conta que  é a sua primeira vez como cordeiro. Ele se queixa que a empresa não oferece um kit básico de segurança, como luvas e protetor auricular. “A corda machuca bastante as nossas mãos e no final do percurso parece que estamos surdos, por conta do barulho”, diz o jovem que está trabalhando para contribuir com as despesas da família.

Mais do que a humilhação dos próprios foliões, algumas vezes eles são também maltratados pelos responsáveis da empresa que faz a segurança do trio. Antonia*, que é cordeira há oito anos, relata que já chegou a apanhar dos responsáveis dos cordeiros. “Quando rola briga, eles não querem nem saber a história, já vem logo batendo e muitas vezes tomam as nossas camisetas para não pagar no final do trabalho”. Ela também reclama que o lanche oferecido é muito ruim. “Eles costumam dar um pacote de bolacha, uma água e um refrigerante, que normalmente sempre estão quentes”.

Gutembergue Oliveira, responsável pela contratação dos cordeiros da empresa Patrulha Federal, se defende e diz que pelo menos a sua empresa trabalha dentro das normas estabelecidas pela fiscalização do carnaval. “Aqui não trabalha menor, o alimento servido está sempre dentro da data de validade e os equipamentos de segurança são oferecidos também”. Ele ainda completa dizendo que o lanche que os cordeiros recebem é o mesmo que ele come durante o percurso do trio. “A bolacha é de boa qualidade, não sei por que eles reclamam  tanto”.

Verdade ou não, essa classe de trabalhadores é fundamental para o bom andamento dos trios e garate também a segurança de muitos foliões que curtem o carnaval dentro da corda. Se não fossem eles, o carnaval de Salvador não aconteceria.

* Os nomes dos personagens foram trocados para preservar suas identidades

 

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